afinal, o que é LUGAR DE FALA? | RESUMÃO

o lugar de falar nada mais é o protagonismo de minorias, até mesmo em movimentos sociais, onde a pessoa que sofre o preconceito fala por si só em representação da própria luta e movimento. facilmente encontramos esse termo usado em debates na internet e militância de movimentos sociais em busca do fim da mediação.

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em contraposição do silenciamento da voz de minorias sociais por grupos privilegiados em espaços de debate público. utilizado por grupos que historicamente têm menos espaço para falar. assim, negros têm o lugar de fala sobre o racismo, mulheres sobre o feminismo, transexuais sobre a transfobia e assim por diante, em hipótese alguma o contrário e nem o ensinamento da luta dos mesmos, como o acontecido no Encontro com Fátima Bernardes, em que um homem da plateia quis ensinar o feminismo pela “experiência” que teve em perguntar a uma mulher feminista tocando-a onde ficava o banheiro e a mesma olhar torto, com essa experiência ele quis conceituar o movimento feminista como se nenhum homem pudesse redirecionar-se a uma mulher por segundo ele, olhar torto por ser feminista.

por fim, lugar de fala JAMAIS foi/é uma forma de opressão, e sim abertura para diálogos.

[POLÊMICA] Nova série da Netflix Insatiable gera debate sobre gordofobia nas redes sociais | Estréia 10 de agosto

Insatiable é uma futura série de televisão norte-americana original Netflix de humor com estréia para o dia 10 de agosto.

Após a Netflix disponibilizar o trailer da nova série, houve uma grande repercussão gerando debates sobre gordofobia, padrão de beleza e MUITAS críticas por aparentemente incentivar a magreza para se sentir aceit@ pelas pessoas, e que tornando-se magro você se sente mais bel@ e pode se vingar das pessoas por isso, porém outros dizem que a história não é bem essa…

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Debby Ryan é Patty na nova série da Netflix, Insatiable (Reprodução/Netflix)

Ao ver os comentários polêmicos sobre o trailer, a atriz Alyssa Milano, que interpreta a esposa do advogado de Patty na série, resolveu se manifestar explicando que Insatiable fala justamente sobre os problemas que o bullying pode causar nas pessoas. “Nós não estamos condenando a Patty. Estamos mostrando (através da comédia) os males que acontecem por causa do fat shaming. Espero que tudo fique claro”, disse, compartilhando o link de uma matéria sobre o trailer feita pela Teen Vogue.

Quem também compartilhou um trecho do mesmo texto foi a própria Debby Ryan. A parte que a atriz dividiu diz:

“Quando ela [Patty] volta para a escola, todos ficam impressionados com sua mudança física. Problemático? Com certeza. Afinal, se o tratamento que alguém te dá é baseado simplesmente na sua aparência, isso diz muito sobre eles, não sobre você. Ligada nisso, Patty parte numa jornada para fazer todo mundo pagar pela forma como eles a trataram (mesmo que o mais correto fosse deixar o carma fazer a sua parte com quem estava errado)”.

Na matéria, o roteirista e produtor executivo da série, Lauren Gussis, conta que a trama foi inspirada em seu próprio passado como alguém que sofreu com bullying. “Espero que, ao colocar toda a dor que senti no humor, eu faça pelo menos uma pessoa se sentir menos sozinha. Espero que muitas pessoas riam e pensem: ‘meu Deus, estou rindo porque me relaciono com isso’”

Fonte: Capricho

Veja o trailer:

[LUTO | 1 ano] Em memória de Itaberlly Lozano morto e carbonizado por ser homossexual | ⚣❤

❝ Por ser gay eu fui traído por aqueles que disseram ser minha família. Por ser gay eu fui odiado até o último momento de vida. Por ser gay eu não fui um bom filho, é o que a mamãe sempre dizia.

Por ser gay eu lutei contra todos os estigmas. Por ser gay eu rejeitei opiniões alheias ao meu respeito. Por ser gay em algum momento, em vida, eu revidei os tapas, os insultos, as críticas.

Por ser gay me tiraram a vida, me afastaram dos meus sonhos, me roubaram dos meus amigos. Por ser gay esvaziaram minha cesta de sorrisos e aqueles que precisavam das minhas gargalhadas hoje estão chorando sentindo minha falta.

Por ser gay minha mãe me deu uma facada, me viu morrer, me viu sangrar enquanto meu corpo agonizava. Por ser gay meu padrasto me arrastou até um canavial, me ateou fogo, tentou se livrar dos meus restos mortais.

Por ser gay eu deixei o mundo mais cedo, nunca terei a chance de ir a lugares que eu não conheço. Por ser gay eu fui uma vítima, eu tive meus motivos para lutar, não fui santo, mas não mereci sentir o meu corpo a queimar.

Por ser gay eu não serei o último, depois de mim muitos como eu serão ceifados. Por serem gays eles serão sequestrados, atacados, queimados, talvez esquartejados. Por serem gays, na maioria das vezes, eles não terão ninguém ao lado. Por sermos gays, entenda uma coisa, estamos sendo mortos e ninguém está fazendo nada.

Por ser gay eu fui embora e eu não voltarei mais, cuidem do meu corpo, façam justiça para que eu descanse em paz. ❞

— Em memória de Itaberlly Lozano,
Assassinado pela Mãe. Carbonizado pelo Padrasto.

Autor do texto, Igor Ruzo.

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O que acontece quando seu filho é chamado de ‘gay’ na quarta série | Por Martie Sirois

Por Martie Sirois, do HuffPost Brasil

Acho que era inevitável. Mas esperava que não acontecesse. Meu filho de 9 anos tem consciência de que a maioria da sociedade acha inadequado que um menino tenha “coisas de menina”.

Embora ele tenha escolhido corajosamente uma mochila que combina com sua personalidade (gatinhos, corações e cupcakes explodindo em forma de um arco-íris brilhante), ele é excluído pelos amigos da quarta série.

Quase do dia para a noite ele foi obrigado a aprender a verdade cruel dos estereótipos de gênero. Na nossa casa, não temos brinquedos “de menino” ou “de menina”. Na nossa família de cinco, o entendimento é que temos apenas “brinquedos”, e todo mundo pode brincar.

Meu filho não se parece nem age como os outros meninos da idade dele. Aos nove anos, ele se identifica como “gênero-criativo”.

Isso significa que ele não quer mudar sua anatomia ou ser menina; simplesmente prefere as coisas que são marqueteadas para elas (como roupas, pijamas, sapatos, jogos, brinquedos, filmes, decoração e acessórios, só para mencionar alguns exemplos). E prefere estar entre as meninas.

Embora tenhamos a sorte de que a maioria das pessoas da escola do meu filho sejam legais, e apesar de ele receber vários elogios por causa da mochila, ele também é isolado.

É alvo de palavras maldosas, olhares tortos e frieza. Não só por causa da mochila, mas pelo que ela representa: sua personalidade.

Ela está nas sutilezas – como ele se retrai quando aparece um inseto, como dá gritinhos agudos quando está empolgado, como prefere meias três-quartos coloridas para usar com shorts. De alguma maneira isso está no DNA dele e o torna quem ELE É.

No mês passado, a frase foi ouvida pela primeira vez. Na hora do almoço, outro menino da quarta série passou pelo meu filho no refeitório e disse: “Você é gay“. Meu filho não respondeu. Ele ficou chocado e não sabia o que fazer.

Mas, quando me contou a história depois, estava morrendo de vergonha, se segurando para não chorar. Fiz a única coisa que sei fazer – o abracei, o ouvi e disse:

1) Não há nada errado com “gay”;

2) As palavras dos outros não te definem;

3) Por favor, continue me contando as coisas. Sempre vou te apoiar. Conversamos sobre o que fazer se aquilo acontecesse de novo, mas é sempre mais fácil planejar do que executar no calor do momento.

Estava me preparando para este dia, admito. O dia em que meu filho, em vez de ser chamado de “esquisito”, seria chamado de “gay”.

O dia em que associariam as tendências efeminadas do meu filho com homossexualidade, sendo que a sexualidade nem sequer está no radar dele. O dia em que usariam a palavra “gay” como o xingamento definitivo – um meio de intimidação, uma tentativa de emascular, humilhar, destruir outro ser humano que não se conforma a estereótipos de gênero; uma maneira de comunicar desgosto, nojo e intolerância.

Isso me irrita em vários níveis, mas principalmente porque meu filho sabe que a palavra “gay” não significa “burro”, como pensam várias outras crianças. Ele sabe o que a palavra significa porque temos vários amigos da comunidade LGBT em nossa vida familiar.

Ele já ouviu um deles falando do tormento que foram seus anos na escola. Ouviu histórias sobre as aulas de educação física, quando os meninos atléticos se impõem sobre os nerds, fracotes ou, especialmente, os efeminados. Também ouviu a história de outro amigo nosso que saiu do armário no ensino médio, nos anos 1980, quando a ameaça da Aids era combustível para a paranoia ignorante de nosso país e adolescentes gays eram expulsos de casa.

Ele sabe o tratamento terrível que essas pessoas enfrentaram, as agressões verbais e físicas que sofreram de parentes ou amigos da escola, às vezes de ambos.

E agora – agora –, ele sabe do massacre na boate Pulse, em Orlando. Pulse, um refúgio e santuário para a comunidade LGBT, no coração da Flórida. Orlando, a cidade da Disney World e dos sonhos, o “lugar mais feliz da Terra”.

Agora Orlando é conhecida como a cidade onde ocorreu o ataque com mais mortos na história dos Estados Unidos, o lugar onde ocorreu o pior crime de ódio contra a população LGBT americana na memória recente.

Meu filho sabe que nossa família é liberal e que não temos visões ultrapassadas e preconceituosas em relação aos gays.

Ele sabe que, quando começar a explorar sua sexualidade, nossa família tem apenas um pedido: seja feliz e bem tratado. Ele sabe que somos aliados da comunidade LGBT. Ele sabe, mas infelizmente saber não é suficiente.

Fui inocente ao achar que amá-lo o bastante e mostrar aceitação seria suficiente. Estou descobrindo que não é. Porque não importa o que eu o pai dele digamos, não importa o quanto o irmão e irmã mais velha digam que “vai melhorar”, ele ainda recebe uma mensagem clara de políticos, radicais religiosos, pares, adultos, mídia e mais: você não está protegido.

Agora, por causa de algumas palavras ditas negligentemente e que serão repetidas no futuro, meu filho é forçado a se perguntar se ele é gay, porque os outros meninos estão dizendo isso. Apesar de ele não saber o que é uma profecia autorrealizável, nunca o vi tão confuso ou ansioso.

É claro que a adolescência e a puberdade estão logo ali. Mas, além dos anos tumultuados da adolescência, meu filho vai ter a preocupação adicional do: “sou gay?” Ele sabe que nossa família não está nem aí e que vamos continuar lhe dando amor e apoio. Mas estou descobrindo que não vai ser uma fase fácil para ele, apesar de ser tudo OK para mim.

Ele não está protegido; ele estará sujeito a discriminação legal. Ele estará sujeito a crimes de ódio. Ele estará sujeito até mesmo à sutil (mas repetitiva e cansativa) discriminação do dia-a-dia. A maioria de nós não compreende os atos de discriminação mais sutis. Mas, quando você vê acontecendo com seu filho, é extremamente doloroso, porque você percebe que as pessoas nem sabem o mal que estão causando.

Para piorar as coisas, justamente quando acreditamos ter dado passos importantes em relação à aceitação da comunidade LGBT, andamos 40 anos para trás. Meu Estado natal da Carolina do Norte aprovou há três meses uma lei que impede pessoas transexuais a usar os banheiros do sexo com que se identificam.

É a pior lei anti-LGBT da história dos Estados Unidos. Estou fazendo tudo o que posso para combatê-la, ligando e escrevendo para meus deputados, criando um grupo de apoio para pais de filhos LGBT.

Mas sou só uma. Sinto-me sem forças contra a enorme onda conservadora atual – que não se abate e é cega à discriminação aberta (ou sutil) que nossos irmãos e irmãs LGBT enfrentam todos os dias.

O que é discriminação sutil? Ano passado, durante um leilão anual que acontece durante a reunião de pais e professores, meu filho e eu estávamos espiando as cestas que seriam leiloadas.

Ele parou para admirar uma delas: a da boneca American Girl. A cesta incluía uma boneca loira de olhos azuis, duas roupinhas e uma cama, cheia de laços e frufrus. O queixo do meu filho caiu. Ele nunca tinha visto essa boneca antes, e sempre fiz questão de esconder os malditos catálogos que chegavam em casa sem eu pedir. Tinha certeza de que ele iria querer uma, e não posso justificar o preço da boneca, muito menos dos acessórios. Mas lá estava ela, em toda sua glória americana.

Meu filho acariciou o cabelo da boneca, dizendo: “Você é tão linda. Queria que você fosse minha, para eu escovar seu cabelo”. Logo depois, uma mulher passou por nós, sorriu casualmente e disse:

“Oh! Essa vai deixar alguma menininha muito feliz!” Enquanto ela se afastava, meu filho sussurrou: “… ou um menininho…” Um comentário inocente, de uma pessoa bem intencionada, mas mesmo assim destrutivo porque até aquele momento meu filho ignorava o fato de que a maioria das pessoas acha que boneca é brinquedo de menina.

Igualmente, desde o primeiro dia em que ele usou sua mochila brilhante, várias crianças o olham torto. Os adultos também. Um adulto nos abordou no caminho da escola e comentou: “Você ficou com a mochila que era da sua irmã?”, dando risada com a esperteza da sua própria piada.

Meu filho olhou para o chão, envergonhado, enquanto eu dizia para o homem que “na verdade, foi meu filho que escolheu”. O constrangimento foi imediato, e demos de ombro. Depois do 18º ou 20º comentário do tipo, meu filho poderia simplesmente ter decidido esconder a mochila no armário.

Ele poderia ter voltado a usar a mochila antiga – um modelo azul pastel que ele não escolheu -, para passar despercebido entre os outros meninos.

Mas ele decidiu, com coragem e independência, não fazer isso. Todos os dias vejo meu menino da quarta série colocar nas costas uma mochila “de menininha”, como se fosse o escudo de um guerreiro. Esse nobre ato diário de rebeldia me convence de que talvez eu tenha feito algo certo.

Não queria que fosse assim, mas tenho de entender que não posso poupá-lo das acusações de “gay”. Não tenho como impedir que os outros meninos o ignorem, tirem sarro da cara dele ou digam: “Você não pode brincar com a gente”.

Não tenho como impedir que olhem torto. Não posso impedir que ele seja julgado. Não posso garantir a dignidade dele. Como mãe, corta o coração saber que seu filho tem de ser corajoso só para ser ele mesmo. Não tenho como impedir a discriminação sutil que mina a fundação dele, dia após dia.

Não tenho bem como oferecer proteção ou recursos legais contra essa discriminação. Apesar de tudo isso, apesar de conhecer os riscos de permitir que ele seja ele mesmo, não poderia ser de outra forma. Ele é exatamente o tipo de ser humano que quero criar.

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Jornalista hétero arma emboscada para tirar atletas do armário | Por Felippe Canale

Um assunto tem repercutido dentro e fora do Brasil devido a uma pauta de um jornalista americano, Nico Hines, do The Daily Beast. Ele teve a imbecil ideia de entrar na Vila Olímpica da Rio 2016 usando apps de encontro, como o Tinder e o Grindr.



Com um perfil de fotos falsas, ele conseguiu marcar encontros com diversos atletas e publicou algumas dessas conversas no seu site. Obviamente, ele não chegou a sair com nenhum deles, afinal, a ideia era apenas ridicularizá-los. Nico chegou a citar quais esportes os tais atletas praticavam e até os seus países de origem. O resultado? Desastroso.

Muitos desses atletas tem pouco mais de 18 anos e tiveram suas vidas expostas antes mesmo de terem se assumido para os seus familiares. Outros, que são casados e tem filhos, terão muito a explicar para as suas famílias. E o pior! Alguns desses atletas vivem em países em que ser gay é crime e nem mesmo poderão voltar para as suas casas.

A repercussão pegou tão mal que o artigo original foi tirado do ar e o editor do site, Nico Hines, pediu desculpas públicas para todos os atletas e também para os seus leitores. Mas, na internet nada se cria, tudo se copia. A história vazou aos 4 ventos e teve atleta fazendo textão pra expor a gravidade do caso.

Dá uma lida neste desabafo que o nadador Amini Fonua, de Tonga, publicou no seu twitter pessoal:

“Um jornalista de merda, hétero, entrou no Grindr na vila olímpica, viu que tinham muitos atletas gays, pegou as informações de cada um e publicou num site. Alguns desses atletas não estavam fora do armário (sair do armário no meio esportivo é algo BEM complicado), outros vinham de países onde ser gay é ilegal (eles podem ser presos, impossibilitados de jogar pra sempre, sofrerem atentados, até ser mortos), e, como o nadador da foto aqui falou, alguns tem cerca de 18 anos e deveriam ter o direito de escolher quando e onde sair do armário (cada pessoa deve decidir a hora de falar para suas famílias e amigos). Agora imagina esses atletas, que treinaram nos últimos 4 anos, além da cobrança de participar de uma olimpíada, tendo que competir no meio dessa montanha russa de emoções. Um jornalista escroto desses não merece ser chamado de jornalista. Gostaria que a vida dele se fudesse com isso, que ele recebesse mil processos no cu, mas eu tenho certeza absoluta que nada vai acontecer com ele, muito antes pelo contrário, só vai ficar mais famoso.”

Tudo isso ajudou a reacender o debate de até onde vai a liberdade de imprensa. Com toda certeza, não deveria chegar nem perto de atitudes que possam prejudicar as vidas de pessoas inocentes.

Via Catraca Livre

O triste relato do gay que finge ser hétero para doar sangue e outras histórias

O Ministério da Saúde diz que a orientação sexual (heterossexualidae, bissexualidade, homossexualidade) de qualquer pessoa não deve ser usada como critério para seleção de doadores de sangue, por não constituir risco em si.

Mas o mesmo ministério possui uma portaria que proíbe gays e bissexuais de doarem, desperdiçando milhares de litros de sangue, que já poderiam ter salvado a vida de muitas pessoas pelo mundo.

A lei, estabelecida em 2013, continua em vigor, apesar das contradições, reproduzindo o preconceito e impedindo de doar pessoas que não se encaixam nos grupos de riscos, como contam as tristes experiências a seguir:

Quem não pode doar sangue?

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(Filipe D’elia)

“Meu pai estava quase morrendo e eu ainda não era assumido pra minha família. Na entrevista, antes da doação, me perguntaram se eu tinha transado com homens no último ano e outras perguntas absurdas desse tipo. Eu fui reprovado porque era gay, só que a sala de doação era todo mundo junto e minha mãe e minha irmã entraram para doar, mas eu não. Tive que falar para elas que fiquei em outra sala e pedi um band-aid pra fingir que eu tinha doado. Foi um grande constrangimento. Foi horrível. Depois disso, eu nem tentei doar sangue nem nada. Ninguém quer meu sangue ruim, pra que eu vou doar? Sei que as pessoas não querem meu sangue porque ele é sangue sujo. Elas preferem morrer do que ter sangue de veado. Então, não vou doar também. Não vou ficar me forçando”

(Marcelo da Silva)

“Procurei o Hospital porque tinha um tio internado na UTI, em 2014. Eu não apresentava nenhum comportamento de risco. ‘Não sou promíscuo, sempre uso preservativo e tenho o mesmo namorado há mais de 12 meses’, disse. E ainda tive que aguentar comentários desagradáveis, do tipo: “Você é uma exceção entre os gays, a maioria é promíscua” ou  “Se você estivesse doente, também não ia querer um sangue ruim”. Mandei um e-mail para a direção do hospital, que se desculpou pelo ocorrido. Consegui doar, mas nunca mais voltei lá, porque fiquei com medo e desgosto. E não pretendo doar enquanto não existir uma legislação clara. Não vejo sentido em fazer alguma coisa clandestina ou meia boca por ser proibido de ajudar os outros. Mas a vontade de doar é imensa”

(Heitor Begliomini)

“Fui num banco de sangue num hospital particular, um dos melhores da cidade, inclusive. Fui com uma amiga, fiz aquele primeiro exame de anemia e aí fui pra entrevista. E pra mim tava tudo ok, não tinha tatuagem, nem piercing, tava tudo em dia. Deixaram minha amiga doar, mas quando eu fui fazer a entrevista (eu tenho trejeitos de gay, né?) falaram que eu tava com excesso de ferro e que eu não ia conseguir doar. Ela perguntou se eu tava comendo muito feijão, carne vermelha, mas eu sempre controlei a minha alimentação. Resolvi tirar a teima. Na mesma semana, passei no médico e pedi exame de sangue. E meu ferro deu normal. Eu até fiz um trabalho na faculdade e criei uma página no Facebook, “Contra a Homofobia nos Bancos de Sangue”. Não vingou muito, mas tá lá. E depois disso eu nunca mais tentei doar. Mas tenho muita vontade”

(Eduardo Marcondes)

“Quando fui doar, já sabia que isso acontecia, o que realmente me deixa ofendido. Mostra o quanto o preconceito ainda está bem enraizado na gente. Então eu fui e menti sem nenhuma preocupação. Sempre me cuidei e fiz exames, sabia que o sangue seria aproveitado se tivesse essa chance. Não sei a gravidade do crime que eu seria acusado por mentir nessa situação, mas pretendo continuar doando. É algo fácil de fazer, não me faz mal e faz muito bem pra alguém. Me ofendo muito com essa determinação de que é melhor morrer do que receber sangue gay. Cada vez que preciso mentir é pior do que a anterior, porque você vê o quanto ainda precisamos fazer entender o que é sexualidade e gênero, e quanto cada um ser feliz não vai de jeito nenhum interferir na própria sexualidade”

(Lucas Caparroz)

“Eu queria doar há muito tempo porque sei que muita gente precisa de doação de sangue. O médico que fez o questionário, me perguntou se eu tinha algum relacionamento. Falei que tinha um namorado, sem saber que ele poderia me barrar por isso. Ele me questionou se era namoradO ou namoradA. Me senti muito constrangido, mas repeti o que havia respondido. Ele falou que eu não poderia doar e me mostrou a lei que fala que pessoas que mantêm relação com pessoas do mesmo sexo não podem doar se a última relação sexual tenha sido nos 12 meses anteriores. Fiquei sem saber o que falar ou fazer, mas ele falou que eu  podia fazer o cadastro pra doador de medula. Me senti muito mal. Eu ainda estava passando por um processo de aceitação pessoal. Depois desse dia, nunca mais tentei doar por receio de ser barrado ou por ter que mentir pra conseguir doar”

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Por Patricia Beloni