– A Teoria do Caos.

Uns chamam de carma, ou destino. Outros dizem que é má sorte, desespero, ou medo. Eu chamo de lei causa e efeito. Onde uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Por isso, tais eventos seriam praticamente imprevisíveis – um tanto caóticos. Falando assim parece algo extremamente assustador, mas não é. Um pouco só, talvez. Imagine que, no passado, você perdeu o vestibular na faculdade de seus sonhos porque um prego furou o pneu do ônibus. E você entra em outra universidade. Então, as pessoas com quem você vai conviver serão outras, seus amigos vão mudar, os amores serão diferentes, seus filhos e netos podem ser outros. No final, sua vida se alterou por completo, e tudo por causa do tal prego no início dessa sequência de eventos. Essa imprevisibilidade aparece em quase tudo, do ritmo dos batimentos cardíacos às cotações da Bolsa de Valores. Muitos falam que, o caos, é algo puramente aleatório. Mas, será tão aleatório assim? Ou ele sempre esteve ali e nós que nunca o vimos? Nunca paramos para observar os motivos que levam aos meios. Algo que, onde um simples prego pode mudar o futuro dos seus netos, não pode ser considerado como um simples aleatório. Então, segundo toda essa teoria louca, te encontrar foi algo completamente imprevisível. Intenso e rápido. Que teve um enorme impacto sobre mim.
– A Teoria do Caos.  
(via adverbio) / (Fonte: Expurgar)

Caio Fernando Abreu: Terça-Feira Gorda

Terça-Feira Gorda


De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico. Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, Iansã com purpurina na cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Ogum Beira-Mar sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.

Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia palavras. havia o movimento, a dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto.

Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pêlos, os dois. Os pêlos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo também, também eu quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos. As nossas carnes duras tinham pêlos na superfície e músculos sob as peles morenas de sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.

Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos. Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre pra dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mas ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E fomos saindo colados pelo meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no meio dos gritos.

Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.

A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele. sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um espelho redondo, uma gilette. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina. Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho no mar pra Iemanjá, me disse. O espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o vôo fiquei com medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu olhei.

Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pêlos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.

Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone, teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem na marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.

E brilhamos.

Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.

Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.



Caio Fernando Abreu

[17 de maio] Dia Internacional Contra a LGBTfobia | Love is Love ✨🌸💖

*Por LGBT ser a sigla mais conhecida representando o movimento, deixarei ela no título do post, mas acrescento aqui que para mim a melhor sigla é o acrônimo prolongado ALGBTPQI+ por incluir todo o meio.*

No dia do Combate à LGBTfobia, lembremos de Dandara e Hérica, vítimas por darem cara à tapa a sociedade em Fortaleza.

Que a luta não seja apenas hoje, mas todos os dias. Não podemos esquecer que há todo momento alguém é espancado ou morto apenas por AMAR alguém do mesmo sexo. Até quando??? CHEGA!!!

CHEGA DE PRECONCEITO!!!

Que lindo seria se todos se amassem independente da orientação sexual, sem julgamentos, apenas amar…

Amar uns aos outros.
É o que mais precisamos.

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O que acontece quando seu filho é chamado de ‘gay’ na quarta série | Por Martie Sirois

Por Martie Sirois, do HuffPost Brasil

Acho que era inevitável. Mas esperava que não acontecesse. Meu filho de 9 anos tem consciência de que a maioria da sociedade acha inadequado que um menino tenha “coisas de menina”.

Embora ele tenha escolhido corajosamente uma mochila que combina com sua personalidade (gatinhos, corações e cupcakes explodindo em forma de um arco-íris brilhante), ele é excluído pelos amigos da quarta série.

Quase do dia para a noite ele foi obrigado a aprender a verdade cruel dos estereótipos de gênero. Na nossa casa, não temos brinquedos “de menino” ou “de menina”. Na nossa família de cinco, o entendimento é que temos apenas “brinquedos”, e todo mundo pode brincar.

Meu filho não se parece nem age como os outros meninos da idade dele. Aos nove anos, ele se identifica como “gênero-criativo”.

Isso significa que ele não quer mudar sua anatomia ou ser menina; simplesmente prefere as coisas que são marqueteadas para elas (como roupas, pijamas, sapatos, jogos, brinquedos, filmes, decoração e acessórios, só para mencionar alguns exemplos). E prefere estar entre as meninas.

Embora tenhamos a sorte de que a maioria das pessoas da escola do meu filho sejam legais, e apesar de ele receber vários elogios por causa da mochila, ele também é isolado.

É alvo de palavras maldosas, olhares tortos e frieza. Não só por causa da mochila, mas pelo que ela representa: sua personalidade.

Ela está nas sutilezas – como ele se retrai quando aparece um inseto, como dá gritinhos agudos quando está empolgado, como prefere meias três-quartos coloridas para usar com shorts. De alguma maneira isso está no DNA dele e o torna quem ELE É.

No mês passado, a frase foi ouvida pela primeira vez. Na hora do almoço, outro menino da quarta série passou pelo meu filho no refeitório e disse: “Você é gay“. Meu filho não respondeu. Ele ficou chocado e não sabia o que fazer.

Mas, quando me contou a história depois, estava morrendo de vergonha, se segurando para não chorar. Fiz a única coisa que sei fazer – o abracei, o ouvi e disse:

1) Não há nada errado com “gay”;

2) As palavras dos outros não te definem;

3) Por favor, continue me contando as coisas. Sempre vou te apoiar. Conversamos sobre o que fazer se aquilo acontecesse de novo, mas é sempre mais fácil planejar do que executar no calor do momento.

Estava me preparando para este dia, admito. O dia em que meu filho, em vez de ser chamado de “esquisito”, seria chamado de “gay”.

O dia em que associariam as tendências efeminadas do meu filho com homossexualidade, sendo que a sexualidade nem sequer está no radar dele. O dia em que usariam a palavra “gay” como o xingamento definitivo – um meio de intimidação, uma tentativa de emascular, humilhar, destruir outro ser humano que não se conforma a estereótipos de gênero; uma maneira de comunicar desgosto, nojo e intolerância.

Isso me irrita em vários níveis, mas principalmente porque meu filho sabe que a palavra “gay” não significa “burro”, como pensam várias outras crianças. Ele sabe o que a palavra significa porque temos vários amigos da comunidade LGBT em nossa vida familiar.

Ele já ouviu um deles falando do tormento que foram seus anos na escola. Ouviu histórias sobre as aulas de educação física, quando os meninos atléticos se impõem sobre os nerds, fracotes ou, especialmente, os efeminados. Também ouviu a história de outro amigo nosso que saiu do armário no ensino médio, nos anos 1980, quando a ameaça da Aids era combustível para a paranoia ignorante de nosso país e adolescentes gays eram expulsos de casa.

Ele sabe o tratamento terrível que essas pessoas enfrentaram, as agressões verbais e físicas que sofreram de parentes ou amigos da escola, às vezes de ambos.

E agora – agora –, ele sabe do massacre na boate Pulse, em Orlando. Pulse, um refúgio e santuário para a comunidade LGBT, no coração da Flórida. Orlando, a cidade da Disney World e dos sonhos, o “lugar mais feliz da Terra”.

Agora Orlando é conhecida como a cidade onde ocorreu o ataque com mais mortos na história dos Estados Unidos, o lugar onde ocorreu o pior crime de ódio contra a população LGBT americana na memória recente.

Meu filho sabe que nossa família é liberal e que não temos visões ultrapassadas e preconceituosas em relação aos gays.

Ele sabe que, quando começar a explorar sua sexualidade, nossa família tem apenas um pedido: seja feliz e bem tratado. Ele sabe que somos aliados da comunidade LGBT. Ele sabe, mas infelizmente saber não é suficiente.

Fui inocente ao achar que amá-lo o bastante e mostrar aceitação seria suficiente. Estou descobrindo que não é. Porque não importa o que eu o pai dele digamos, não importa o quanto o irmão e irmã mais velha digam que “vai melhorar”, ele ainda recebe uma mensagem clara de políticos, radicais religiosos, pares, adultos, mídia e mais: você não está protegido.

Agora, por causa de algumas palavras ditas negligentemente e que serão repetidas no futuro, meu filho é forçado a se perguntar se ele é gay, porque os outros meninos estão dizendo isso. Apesar de ele não saber o que é uma profecia autorrealizável, nunca o vi tão confuso ou ansioso.

É claro que a adolescência e a puberdade estão logo ali. Mas, além dos anos tumultuados da adolescência, meu filho vai ter a preocupação adicional do: “sou gay?” Ele sabe que nossa família não está nem aí e que vamos continuar lhe dando amor e apoio. Mas estou descobrindo que não vai ser uma fase fácil para ele, apesar de ser tudo OK para mim.

Ele não está protegido; ele estará sujeito a discriminação legal. Ele estará sujeito a crimes de ódio. Ele estará sujeito até mesmo à sutil (mas repetitiva e cansativa) discriminação do dia-a-dia. A maioria de nós não compreende os atos de discriminação mais sutis. Mas, quando você vê acontecendo com seu filho, é extremamente doloroso, porque você percebe que as pessoas nem sabem o mal que estão causando.

Para piorar as coisas, justamente quando acreditamos ter dado passos importantes em relação à aceitação da comunidade LGBT, andamos 40 anos para trás. Meu Estado natal da Carolina do Norte aprovou há três meses uma lei que impede pessoas transexuais a usar os banheiros do sexo com que se identificam.

É a pior lei anti-LGBT da história dos Estados Unidos. Estou fazendo tudo o que posso para combatê-la, ligando e escrevendo para meus deputados, criando um grupo de apoio para pais de filhos LGBT.

Mas sou só uma. Sinto-me sem forças contra a enorme onda conservadora atual – que não se abate e é cega à discriminação aberta (ou sutil) que nossos irmãos e irmãs LGBT enfrentam todos os dias.

O que é discriminação sutil? Ano passado, durante um leilão anual que acontece durante a reunião de pais e professores, meu filho e eu estávamos espiando as cestas que seriam leiloadas.

Ele parou para admirar uma delas: a da boneca American Girl. A cesta incluía uma boneca loira de olhos azuis, duas roupinhas e uma cama, cheia de laços e frufrus. O queixo do meu filho caiu. Ele nunca tinha visto essa boneca antes, e sempre fiz questão de esconder os malditos catálogos que chegavam em casa sem eu pedir. Tinha certeza de que ele iria querer uma, e não posso justificar o preço da boneca, muito menos dos acessórios. Mas lá estava ela, em toda sua glória americana.

Meu filho acariciou o cabelo da boneca, dizendo: “Você é tão linda. Queria que você fosse minha, para eu escovar seu cabelo”. Logo depois, uma mulher passou por nós, sorriu casualmente e disse:

“Oh! Essa vai deixar alguma menininha muito feliz!” Enquanto ela se afastava, meu filho sussurrou: “… ou um menininho…” Um comentário inocente, de uma pessoa bem intencionada, mas mesmo assim destrutivo porque até aquele momento meu filho ignorava o fato de que a maioria das pessoas acha que boneca é brinquedo de menina.

Igualmente, desde o primeiro dia em que ele usou sua mochila brilhante, várias crianças o olham torto. Os adultos também. Um adulto nos abordou no caminho da escola e comentou: “Você ficou com a mochila que era da sua irmã?”, dando risada com a esperteza da sua própria piada.

Meu filho olhou para o chão, envergonhado, enquanto eu dizia para o homem que “na verdade, foi meu filho que escolheu”. O constrangimento foi imediato, e demos de ombro. Depois do 18º ou 20º comentário do tipo, meu filho poderia simplesmente ter decidido esconder a mochila no armário.

Ele poderia ter voltado a usar a mochila antiga – um modelo azul pastel que ele não escolheu -, para passar despercebido entre os outros meninos.

Mas ele decidiu, com coragem e independência, não fazer isso. Todos os dias vejo meu menino da quarta série colocar nas costas uma mochila “de menininha”, como se fosse o escudo de um guerreiro. Esse nobre ato diário de rebeldia me convence de que talvez eu tenha feito algo certo.

Não queria que fosse assim, mas tenho de entender que não posso poupá-lo das acusações de “gay”. Não tenho como impedir que os outros meninos o ignorem, tirem sarro da cara dele ou digam: “Você não pode brincar com a gente”.

Não tenho como impedir que olhem torto. Não posso impedir que ele seja julgado. Não posso garantir a dignidade dele. Como mãe, corta o coração saber que seu filho tem de ser corajoso só para ser ele mesmo. Não tenho como impedir a discriminação sutil que mina a fundação dele, dia após dia.

Não tenho bem como oferecer proteção ou recursos legais contra essa discriminação. Apesar de tudo isso, apesar de conhecer os riscos de permitir que ele seja ele mesmo, não poderia ser de outra forma. Ele é exatamente o tipo de ser humano que quero criar.

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Carta Aberta de Beyoncé Sobre a Violência Policial Contra a População Negra

“Nós estamos doentes e cansados das mortes de homens e mulheres jovens em nossas comunidades.

Cabe a nós tomar uma posição e exigir que eles ‘Parem de nos matar’.

Nós não precisamos de sua simpatia. Precisamos que todos respeitem nossas vidas.

Nós vamos nos levantar como uma comunidade e lutar contra qualquer um que acredite que o assassinato ou qualquer ação violenta por aqueles que juraram nos proteger, deva ser consistentemente impune.

Esses roubos de vidas nos faz sentir impotente e sem esperança, mas temos de acreditar que estamos lutando pelos direitos da próxima geração, para os próximos homens e mulheres jovens que acreditam no bem.

Isso é uma luta humana, não importa sua raça, gênero ou orientação sexual, isso é uma luta por qualquer um que se sinta marginalizado, e por quem está lutando pela liberdade e direitos humanos.

Isto não é um apelo só a todos os agentes da polícia mas para qualquer ser humano que não valoriza a vida. A guerra contra as pessoas de cores e minorias precisa de um fim.

O medo não é uma desculpa. O ódio não vai ganhar.

Todos nós temos o poder de canalizar a nossa raiva e frustração em ações. Devemos usar nossas vozes entrar em contato com os políticos e legisladores nos nossos distritos e exigir mudanças sociais e judiciais.

Enquanto oramos para as famílias de Alton Sterling e Philando Castela, também vamos orar por um fim desta praga de injustiça em nossas comunidades.”

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Agora já era

Você queria um amor, te sobrou o inbox nunca visualizado;

Você queria o pecado encarnado, te sobrou o Xvideos com conexão de fibra ótica.

Você queria uma ótima chance de abrir o coração pra dividir as agonias do viver, te sobrou ‘vamos ver de beber uma, sim’;

Você queria o fim da solidão, te sobrou o pacotão Netflix, guaraná e Whatsapp;

Você queria a chave pra se sentir atraente, sobrou o alface no meio dos dentes que ninguém te contou o jantar inteiro.

Você queria transar sem compromisso, mas continuou egoísta e ela não gozou. Aliás, você percebeu que ela não gozou?

Você queria meditar pra melhorar sua índole, fazer amigos e influenciar pessoas, mas te contaram que não adianta fazer Yoga e não dar bom dia pro porteiro.

Você queria dinheiro e depois cafuné dela. Te sobrou a dor de separar umas moedas pra pegar o busão e trombar seus amigo no puteiro.

Demorou pra entender que entrega é um processo inteiro. Ninguém se apaixona por decreto.

Você queria amar, mas sobrou o mentir.

Você queria gozar, mas sobrou a punheta, a siririca, a energia desperdiçada.

Você queria ser levada – ou levado – pela chuva, mas a água tava gelada demais. Aliás, suja também.

Você queria, mas não agia, só esperava, dormia e reclamava. Por isso a via da vida fechou. O tempo acabou. Sua chance; ela passou.

Agora já era.

Fábio Chap é escritor e ativista. Autor do livro ‘Tive um Sonho Pornô. Escreve no Quebrando o Tabu às segundas-feiras.

Via Quebrando o Tabu