PRÓ-VIDA ou PRÓ-NASCIMENTO? | Blog Gambiarra

Eu sou filha do desespero. E fui entregue à adoção. Fui acolhida pela minha família e assim eles se tornaram meus pais.
Ano passado foi a minha vez: me descobri grávida. Fiquei assustada e quis morrer muito. Mas não quis abortar. Escolhi ter o meu filho e hoje eu o crio com apenas três coisas: com o apoio dos meus pais, com o acolhimento dos meus amigos e com coragem. Muita coragem.

Também sou professora. Abordo assuntos delicados em sala e não recuo. Eu também estudo psicoterapia e atendo mulheres. Falo de empoderamento feminino sempre que eu posso. Acolho, escuto, ouço, aconselho. Ajudo. Já participei de projeto social com mulheres periféricas e em situação de rua. Já fiz pesquisa com mulheres da alta sociedade. Já convivi com mulheres religiosas. Vi um pouco da revolução das mulheres no sertão.
Já conversei com mulheres que engravidaram sem querer e que estavam pensando em aborto. E conversei para mostrar que aborto não é um fim e sim um começo, e que as sequelas de um aborto vão além das físicas. Não é fácil viver a perda e conviver com ela. Também já falei com mulheres que engravidaram e, por medo, por vergonha, entraram em desespero. Tentei mostrar que depois de toda a bagunça, de todo o medo, vem a parte boa. Muitas desistiram do aborto, outras não. Para as que desistiram, conversei durante a gestação, algumas acompanhei o parto e para outras eu conversei durante o pós-parto, fiz visitas, ajudei lavando uma louça, limpando a casa. Para as que fizeram o aborto, dei todo o apoio e encaminhei para quem poderia dar o amparo médico e psicológico necessário.
Resumindo: eu fiz, faço e continuarei fazendo MUITO pelas mulheres nessa situação. Essas coisas tomam o meu tempo, minha energia, meu pouco dinheiro e levam parte da minha reputação, rs. E eu me orgulho muito disso, doa a quem doer.

No lugar de pessoas “pró-vida” vejo apenas pessoas “pró-nascimento”. O que interessa é nascer, pois a vida de quem nasce e da mulher que vai parir, fica em segundo plano.

Ser “pró-vida” é, realmente, não querer ver NENHUM ser humano morrer, e não essa obsessão distorcida por fetos. Fetos sim. Fetos que serão abandonados por essas mesmas pessoas, porque as pessoas que sentem mais ódio do aborto são as que menos fazem alguma coisa pelas mulheres, pelas crianças ou pela sociedade em geral. E eu ainda me impressiono com essas pessoas que não entendem que é possível ser contra o aborto e a favor da descriminalização dele.
Essas pessoas defendem alucinadamente o feto da mulher que transa, mas o feto da menina que foi estuprada parece valer misteriosamente menos. “Para estupro até pode deixar fazer um aborto…” dizem.
São essas mesmas pessoas que, em caso de infertilidade, não adotam as milhares de crianças abandonadas em orfanatos. Essas pessoas correm para uma clínica e torcem pelo maior número de embriões viáveis. O maior número sim, pois é um procedimento caro. E, engravidando na primeira tentativa, abandonam os outros embriões no tanque de nitrogênio sem o menor pudor, pois não tem condições de implantar todos.
São as mesmas pessoas que não se chocam com quem coloca o adesivo de “não doador de órgãos” no documento. Que não se chocam com quem não doa medula óssea ou sangue. Porque afinal, tudo bem se algumas pessoas morrerem na lista de espera, já que o sujeito tem direito sob o próprio corpo até depois de morto. E também tem o direito de não querer doar nada em vida. Todos tem esse direito desde que não seja uma mulher grávida; essa não tem.

A mulher grávida não tem o direito de escolha.

Então, se você é pró-vida e contra o aborto de verdade, junte-se aos movimentos a favor da regulamentação do aborto. Monte lugares seguros para receber, acolher, ouvir e dar segurança para essas mulheres desesperadas. Monte um serviço de advogados para começar a pressionar os homens, os campeões absolutos em abandonos, a assumirem a responsabilidade desde a gestação.
Monte um projeto voluntário de apadrinhamento dessas (agora sim) crianças que vocês querem tanto salvar, para que não falte nada a elas pelo menos na primeira infância, para que ela se sinta tão amada quanto você diz ama-la enquanto feto.
Crie oportunidades de trabalho para essa mulher, para que ela consiga criar essa criança que você insistiu tanto que ela tivesse.
Ajude a criar ambulatórios com fácil acesso para o planejamento familiar de qualidade. Ajude para que essas mulheres tenham condições dignas de pré-natal e parto.
Faça alguma coisa.

Ou apenas pare e cuide da sua vida, que pelo visto é a única que realmente te interessa.

prolife
*
[Fonte:https://nagambiarra.wordpress.com/2016/03/21/pro-vida-ou-pro-nascimento/]

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2 comentários sobre “PRÓ-VIDA ou PRÓ-NASCIMENTO? | Blog Gambiarra

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